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Todos guardam em sua memória da sala de
aula a presença significativa do quadro-negro. Considerado uma
peça essencial do mobiliário escolar, povoa o imaginário
de nossos tempos de escola5. Essas recordações despertam
lembranças alegres, mas também situações de
medo e de humilhação – não saber resolver as
contas de aritmética frente a todos os colegas, o castigo de escrever
no quadro várias vezes a mesma frase, as extensas lições
e temas de casa que a professora escrevia e que deviam ser copiadas durante
grande parte do turno escolar, os avisos copiados para serem levados aos
pais.
É no final do século XIX que o uso do quadro-negro instala-se
nas escolas e que começa a ocupar um espaço central na sala
de aula, período em que paulatinamente consolidam-se os sistemas
públicos de instrução elementar e, paralelamente,
crescem as exigências de um mínimo de mobiliário e
material escolar. A lousa ou ardósia também compunha o material
escolar do aluno, sendo o seu único instrumento de trabalho até
meados do século XIX, antes da generalização do uso
do caderno escolar. É um quadrado de madeira que protege a fina
placa de xisto retangular de 20 a 30 cm de comprimento por 15 de largura,
muitas vezes quadriculado. Somente depois que os alunos sabiam escrever
bem e com caligrafia bonita nas pedras de lousa, é que lhes era
permitido começar a escrever com tinta e pena de aço. Para
apagar o que tinham escrito na lousa, os alunos tinham um paninho e um
vidrinho com água. Cuspir na pedra de lousa para apagar alguma
coisa era proibido, mas, mesmo assim, era feito ocultamente com muita
freqüência, indicam que a retirada das lousas individuais nas
séries iniciais, especialmente nas capitais, se deu pelo crescimento
da produção do papel nos anos 1920. A escrita a lápis
em papel permitia uma leveza do traço que a de lápis de
pedra não podia obter. No interior do estado de São Paulo,
no entanto, a lousa individual foi utilizada até os anos de 1940
para as primeiras séries.
Os alunos faziam sobre a ardósia várias atividades antes
de as copiarem no caderno - as operações matemáticas,
a decomposição de frases, escreverem os resultados do cálculo
mental, desenharem. Além de escrever e calcular, a ardósia
foi o suporte essencial das interrogações orais do professor.
Ao longo do século XX, o quadro-negro vai assumindo novas texturas,
é substituído pelo quadro-verde, mas continua dominando
a centralidade do processo de ensino-aprendizagem , para atender às
exigências da moderna higiene tem-se procurado fazer a lousa de
cor branca com giz preto, quadro marrom, azul celeste e azeitonado.
As pedras ou tábuas de mármores foram inicialmente usadas
como superfícies próprias à escrita;
a pedra branca, o carvão e o gesso também foram utilizados
para escrever. O ensino mútuo / monitorial inaugura uma arquitetura
do espaço escolar, em que mobiliário e material passam a
ser dispositivos fundamentais para o sucesso do método.
As vantagens do uso do quadro-negro residiam na possibilidade de o professor
utilizar-se desse dispositivo para o ensino simultâneo das primeiras
lições de leitura e de escrita. O quadro-negro para o professor
e a lousa para o aluno eram meios pelos quais seria conhecido o alfabeto
e seriam desenhadas as letras Além disso, era um excelente meio
de ensinar em pouco tempo os alunos a ler e escrever.
À medida que se introduz o método simultâneo,
o quadro-negro assume o seu lugar privilegiado na sala de aula, junto
com os quadros murais, os mapas, o abecedário, etc.
Com o realismo pedagógico e o método intuitivo, ampliam-se
os recursos materiais como auxiliares do processo ensino-aprendizagem.
A professora primária Rosalina Frazão (1884), ao falar sobre
o material das escolas brasileiras, denuncia a má qualidade dos
quadros-negros, recomendando sua substituição pelas tábuas
ardoseadas empregadas nos Estados Unidos, justificando:
“é incalculável o incomodo que dá um quadro-negro
de madeiras, a que se adapta uma tinta malpreparada; o giz fica-lhe tão
aderente que é quase impossível trazer o quadro limpo. Torna-se
necessário molhar a esponja, o que, longe de concorrer para o asseio
do quadro, faz com o giz uma espécie de lama branca que impede
completamente o trabalho regular. Ao passo que as tábuas preparadas
com ardósia deixam-se limpar facilmente com esponja seca”.
O quadro-negro também é um espaço preferido para
brincadeiras nos intervalos escolares, de expressão da contestação
dos alunos. Está presente nas famosas fotos de fim-de-ano escolar:
o docente sentado na mesa da professora, tendo o quadro-negro ao fundo,
alguns livros, a bandeira e o globo terrestre.
Enfim, o dia a dia escolar era transmitido e ainda hoje é através
desse recurso de escrita e de disciplina do emprego do tempo e do fazer
escolar, da escola infantil à Universidade.
O quadro-negro também está associado à representação
da docência. Em fotos, charges, desenhos, pinturas, etc. a figura
do professor é costumeiramente retratada diante de um quadro-negro.
O sucessor do quadro-negro, em breve será a lousa digital, uma
plataforma sensível ao toque, que funciona como um grande monitor
que exibe arquivos de fotos e de vídeos preparados pelo professor
e que também pode receber informações escritas diretamente
na tela. Além disso, a lousa digital está conectada em rede
com o computador dos alunos, para que visualizem a aula nos terminais
instalados nas carteiras.
Finalizando, o quadro-negro/verde/digital – do giz à caneta
eletrônica - como suporte das experiências cognitivas e estéticas
da vida escolar, possibilita reconstruir a memória de uma prática
educativa arraigada no cotidiano de todo aluno, na perspectiva de uma
história das práticas escolares.
Autor:Fernando Paixão
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