Nas décadas de 40 e 50, todos os dias
úteis entre as dezessete e as dezenove horas, a secretaria
do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia funcionava,
além do seu expediente normal, como uma espécie
de “club” no mais ortodoxo sentido inglês
da palavra.
Profissionais de diversas áreas tinham, ali, o seu encontro
diário. Mesmo aqueles mais opostos, e até adversários
na vida pública, tinham, naquela sala, o terreno comum
do endimento.
Conquanto o congraçamento fosse geral haviam, evidentemente,
grupos mais ligados, por força de lembranças comuns.
Espécies de “câmaras” do “plenário”
maior.Neste último caso, estavam os antigos revisores
da Imprensa Oficial do Estado. A vida os levara por diversos
caminhos: Aloysio de Carvalho Filho era professor de Direito
Penal; Jayme Junqueira Ayres, de direito civil; Francisco da
Conceição Menezes, (Secretário do próprio
Instituto Histórico) era professor de História;
Tadeu Santos, jornalista como Arnaldo Alves. Eram os mais assíduos
desse grupo. Eventualmente, apareciam Teodomiro Batista e Salvador
Borges dos Reis.
A conversa da secretaria do Instituto Histórico resolvia
todos os problemas do mundo. Da guerra na Europa ao dia-a-dia
da cidade ou do trabalho de cada qual.O grupo que vinha da Imprensa
Oficial não se poupava de lembrar os fatos que viveram
em comum. Na verdade, todos se consideravam, de alguma sorte,
vinculados pelo denominador como que era a lembrança
do “Dr. Cazuza”, referência entre o respeito
e o carinho com que identificavam a figura de José de
Aguiar Costa Pinto, “diretor da casa” e que lá
empregara a todos.
Francisco da Conceição Menezes, de origem muito
modesta, começara na infância a aprender o ofício
de funileiro. Daí, passou a aprendiz de tipógrafo
e foi nesta condição que se meteu, ainda menor
em uma greve com movimentos de rua reprimidos pela polícia,
tendo, num desses choques, o comprometimento de um dos olhos,
o que lhe deu, pela vida afora, um jeito muito peculiar de fitar
as pessoas.
Foi, pois, já com algum “conhecimento de caixa”
que passou a trabalhar na oficina da Imprensa Oficial. E, daí,
já fazendo o curso de professor primário na Escola
Normal, passou à revisão. Coube-lhe trabalhar
na elaboração gráfica da edição
anotada por Braz do Amaral do livro de Inácio Acioli
e, também, da edição das “Notícias
Soteropolitanas e Brasílicas” de Luiz dos Santos
Vilhena. E, por muitas vezes afirmava ter sido ali, no contato
com os textos que revia, a tomada de decisão de fazer
do estudo e do ensino da História a sua opção
profissional.
Memórias e comentários desfilavam: a continuidade
administrativa de José Joaquim Seabra durante o quatriênio
Antonio Moniz; a ascensão de Góes Calmon; a escolha
de Vital Soares para a vice-presidência da República:
os últimos dias da “república velha”
com gente pretendendo publicar atos no Diário Oficial
à revelia de uma autoridade vacante. Eram os antigos
revisores do Diário Oficial que conferiam reminiscências
e observações a propósito de uma casa de
trabalho que jamais deixou de ser deles.
Autor: Cid Teixeira