
Fonte: Publicado na Revista da FAEEBA,Salvador,no
6,jul./dez. 1996
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ANFRISIA SANTIAGO
A aluna brilhante, desde a aula primária,
mais amplamente se lhe revelaram as qualidades intelectuais
durante o período em que cursou a Escola Normal da Bahia,
onde se diplomou, aos l6 anos de idade, no dia 30 de dezembro
de 1910.
Cabia-lhe, assim, precocemente se iniciar na árdua missão
de educadora, tarefa de que se desincubiu inicialmente no ensino
particular, ao assumira função de adjunta da Escola
Primária do Educandário Coração
de Jesus,onde lecionou, apenas, de fevereiro a abril de 1911.
É que, naquele ano,foi oficialmente nomeada professora
interina do arraial de Santo Estevão, na Vila de São
Francisco do Conde. Erradicada do ambiente familiar, seguiu
para aquela localidade a fim de ali iniciar nobre apostolado
educacional. Efetivada no magistério em 27 de maio de
1912, ainda se manteve no local até 1914.
Todavia, em face de sua designação para professora
da Escola Municipal do distrito da Vitória (1914-1915),
teve que regressar a Salvador. É que no dia 7 de outubro
de 1914, havia sido nomeada adjunta do mesmo estabelecimento,
situado na rua do Rosário de João Pereira, à
Avenida Sete de Setembro, hoje simplesmente Rosário.
Pouco tempo, entretanto, permaneceria a jovem mestra no exercício
do referido cargo, extinto, em 1916, por decisão do Órgão
Superior da Educação do Estado.Ao mesmo tempo,
o Conselho Municipal do Salvador criou sessenta cadeiras populares
no subúrbio. Na oportunidade, graças às
providências adotadas pelo Presidente Consultivo, Dr.
Alfredo de Campos França, foi Anfrísia Santiago
indicada para reger a Escola Popular da Cruz do Pascoal, em
Santo Antônio Além do Carmo, depois convertida
na primeira Escola Municipal do tradicional distrito, onde lecionou
de 1916 a 1925.
Ambicionando, no entanto, realizar plenamente o seu objetivo
educacional e, ao mesmo tempo, imprimir a marca de inconfundível
personalidade baiana, pôde, afinal, em 1927, fundar o
Colégio Na. Sra. Auxiliadora, a cuja frente esteve desde
aquela data e até pouco tempo antes do seu desaparecimento,ocorrido
no dia 27 de abril de 1970.Enfrentando, desassombradamente,
as naturais preocupações que suscitam um empreendimento
dessa natureza, impôs-se, com apenas 33 anos, perante
a comunidade baiana, que acolheu com respeito e confiança,
a iniciativa da conceituada Mestra.É de ressaltar que,
sendo educadora nata, a Anfrísia Santiago impulsionava
o vivo empenho de ministrar lições de moral, ética
e civismo, pregações essas que sempre se sucediam
após a oração matinal rezada, em conjunto,
na roça da casa verde, ou no pátio ornado de lindas
trepadeiras coloridas,onde se reuniam as séries do ginásio
antes do início dos trabalhos escolares.
Era, pois, uma pedagoga preocupada com a transmissão
de conhecimentos, com a comunicação de benefícios
modelos de comportamento e corretas atitudes perante a vida.Anfrísia
Santiago transmitia e ensinava, orientava e repassava, com lucidez
e clarividência, aos seus discípulos, belas e construtivas
noções acercadas normas de conduta e regras de
bem viver. Parece-me que estou a escutá-la declinando
o belo e educativo aforismo de Elizabeth Leseur: "Toda
alma que se eleva, eleva o mundo".Por outro lado, além
da atividade educativa, sobretudo exercida na condição
de diretora do seu estabelecimento de ensino, foi D. Anfrísia
uma intelectual de méritos incontestáveis. Dotada
de rápido raciocínio, reconhecida erudição,
excedia-se igualmente na lógica argumentação.
Circunspecta e severa, competente e aplicada, rapidamente se
impôs à admiração do povo de sua
terra.Por todas essas razões, foi distinguida em algumas
oportunidades educacionais. Assim, participou do Congresso Pedagógico
de 1915, nesta capital.
Em 1933, tomou parte do 3o Congresso de Educação,
ocorrido em São Paulo, sob o patrocínio da Associação
Brasileira de Educação (CDE).Em 1934, também
se fez presente ao 4o Congresso de Educação em
Fortaleza-Ceará, em cuja oportunidade teve brilhante
desempenho.Não lhe atraía o brilho do sucesso.
Em lugar de pleitear posições, ou disputar encargos,
preferia desempenhar sua função de educadora.
É que privilegiava, antes de tudo, o seu Colégio,
valorizava a sua profissão, preferindo sempre estar entre
seus alunos e colaboradores.
Avessa à promoção, era extremamente discreta
nas atitudes e no trajar-se. Sempre se apresentava elegantemente
vestida desde as primeiras horas da manhã. Recordo-a
nos seus impecáveis "tailleurs" de talhe perfeito
e sóbrias cores, nos seus sapatos escarpins de salto
médio e escuros nas finas meias de costura corretíssima,
no apurado bom gosto, no uso de requintadas écharpes
de seda pura que lhe ornavam o colo sempre oculto. Nunca a vi
com os braços descobertos. Tinha-os sempre revestidos
com bem montadas mangas compridas.Relembro-a, igualmente, no
uso de acessórios de extremo bom gosto,requinte da mulher
naturalmente elegante. Rosto lavado, total ausência de
pintura facial, cabelos presos em coque, mãos longas,
unhas bem tratadas e polidas, revestidas de esmalte incolor.
Enfim, uma Senhora como poucas na Bahia, que sabia adequar ao
tipo, à sua idade, e ao seu "status" de educadora
, a vestimenta condizente com a sua personalidade.Se é
certo que D. Anfrísia teve uma vida árdua e repassada
de luta, obteve, no entanto, muitas vitórias profissionais.
Ao completar bodas de prata de magistério teve a grande
alegria de diplomar a primeira turma de Professoras do Colégio
Na. Sa. Auxiliadora, ocasião em que pronunciou delicado
discurso de paraninfa.Penso ser indispensável mencionar,
ainda, que sempre buscou imprimir originalidade nos uniformes
usados por seus discípulos. Conhecida ficou na Bahia
a graciosa farda denominada "zebrinha", constituída
de um vestido tipo chemisier e chapeuzinho do mesmo tecido.
Mais tarde, adotou para as séries do curso primário
um vestido de anarruga com gola branca de fustão, diferenciando
cada série pela cor predominante do tecido.Não
se cingiu, porém, exclusividade ao papel de educadora
a atuação de Anfrísia Santiago no seio
da comunidade baiana. Assim, de 1940 a 1948, encontramo-la como
membro da diretoria do Centro de Estudos Baianos, em cuja agremiação
particular figurava como única representante do sexo
feminino.
De sua autoria, é ainda, o primeiro trabalho divulgado
na Série Centro de Estudos Baianos, o de nº 1, intitulado:
Capelas Antigas da Bahia, 24 de abril 1951.Em 1947, havia assumido,
após certa relutância, o Departamento de Educação
do Estado da Bahia, em cuja função permaneceu
de maio a setembro, em atendimento ao convite do então
Governador da Bahia, Dr. Otávio Mangabeira, através
da indicação do insigne educador baiano, Dr. Anísio
Spínola Teixeira, seu fraternal amigo.
Pesquisadora pertinaz e paciente, passava longas horas nos arquivos
baianos, especialmente consultando sobre as nossas igrejas e
acerca da vida do notável poeta Castro Alves, a quem,
além de admirar profundamente, era ligada por laços
de parentesco, conforme revelava constantemente. Entre outros
títulos que ornam o seu espírito operoso e dedicado,
vale mencionar: membro do Instituto Geográfico e Histórico
da Bahia, e do Instituto Genealógico da Bahia. Fundadora
e ex-presidente da Federação das Bandeirantes,
seção da Bahia, de cuja agremiação,
pelos relevantes serviços prestados, recebeu a Estrela
do Mérito das Bandeirantes do Brasil.A repercussão
de sua importante obra educacional atravessou as fronteiras
estaduais, sendo-lhe, em vista disso, outorgada, pela Prefeitura
do Distrito Federal, a Medalha Anchieta.
Nesta capital, em 1960, recebeu distinguida homenagem da Inspetoria
do Ensino Secundário de Salvador, então dirigida
pelo Pe. Manuel Barbosa, tendo sido orador da solenidade, que
a enobreceu com o título de Mestre do Ano, o Prof. Dr.
Antônio Ernani de Assis Menezes.E D. Anfrísia,
que jamais pleiteou honrarias, que recusou a honroso convite
para compor o quadro docente da Faculdade de Filosofia Ciências
e Letras de Isaías Alves, ainda teve ornado o peito digno
com a nobilitante honraria de Cavaleiro da Ordem Nacional do
Mérito Educativo, que lhe foi conferida, a 27 de setembro
de 1968, pelo Presidente da República, Gal.Arthur da
Costa e Silva, de acordo com o decreto lei no 61.285, de 1o
de setembro de 1967. Cumpria, assim, o Governo Federal um fundamental
dever de justiça para com aquela que dedicara toda a
sua existência à causa da educação.Oito
anos antes, a 3 de dezembro de 1960, completou a inesquecível
Mestra o seu jubileu de ouro, cercada pelo respeito dos seus
conterrâneos e pelo carinho de tantos quantos lhe admiravam
os incontestáveis méritos de inteligência
e caráter.
Profundamente voltada para as coisas do espírito, católica
convicta, entregou-se, igualmente, à obra social, amparando
pobres e desvalidos, aos quais, na medida do possível,
procurou oferecer conforto material e espiritual. Para tanto,
decidiu fundar, com a inestimável colaboração
de seus auxiliares diretos, amigos e discípulos, a cruzada
social Auxílio Fraterno, no bairro de Brotas, incumbida
de prestar assistência médica, alimentar e religiosa
a parte da população carente que, então,
residia naquele trecho do populoso bairro. Hoje, na mesma área,
entregue à Arquidiocese de São Salvador, eleva-se
a Capela de Na. Sra. de Fátima.Em nossa opinião,
pelo muito que nos foi dado acompanhar acerca de sua ação
e de sua trajetória de vida, não foi a Bahia pródiga
nas homenagens que deveriam ser tributadas à memória
da incomparável mestra.
A nosso juízo, sua lembrança continua a reclamar
as reverências que lhe foram insuficientemente tributadas
pelos poderes públicos de nossa terra.Conforme assinalei
alhures, não se queira argüir que o fato de ter
seu nome incluído em três edições
do "Who’s in Latin America" da Universidade
de Stanford, Califórnia, nem a circunstância de
haver pronunciado inúmeras conferências sobre vultos
e fatos da História da Bahia e, ainda, ter realizado
profundas pesquisas históricas em nossos arquivos dão
a exata medida do seu valor como intelectual, das suas elevadas
qualidades morais e da sua consagrada obra de educadora.Anfrísia
Santiago era, com efeito, uma verdadeira pedagoga. Seus conhecimentos
amplos variados e especializados, entusiasmavam a muitos dos
seus discípulos que jamais lhe esqueceram os sábios
ensinamentos.
Conhecedora perspicaz da vida de Castro Alves, empolgava-se
no relato minucioso, preciso e apaixonado da vida do grande
poeta romântico baiano, sobre cuja vida, como disse anteriormente,
muito pesquisou nos arquivos de nossa cidade.Mas, no que ninguém
a excedia, pela seriedade das considerações e
profundeza de conhecimento, era naquela extraordinária
capacidade de, educando,ministrar lições de civismo.
De incutir no alunado as noções mais profundas
e o sentido mais puro da palavra liberdade. Diante de situações
que julgava ferir o homem no que ele tem de mais íntimo
e respeitável, a sua dignidade, D. Anfrísia pregava
a altivez. Em certo instante da vida baiana, em que a sociedade
preconceituosa, intencionalmente discriminava pessoas, por esse
ou aquele motivo, coube a D. Anfrísia, do alto de sua
respeitabilidade, apoiar os discriminados, dando-lhes inteiro
apoio e irrestrita solidariedade.O falecimento da notável
educadora, após doloroso sofrimento, proporcionou aos
seus amigos e admiradores e satisfação de, embora
tardiamente,vê-la agraciada com a medalha do Mérito
Educacional da Bahia, na Classe Medalha de Prata, em atenção
aos relevantes serviços prestados à educação,
autorga conferida pelo Governador do Estado da Bahia, Prof.
Luiz Viana Filho, na pessoa da Profa. Rita Carmelita Santiago,
irmã da pranteada extinta, de acordo com o decreto s/n
de 09.03.71, publicado no Diário Oficial de 10 de março
do mesmo ano.Pena, entretanto, que a notável educadora
pouco houvesse deixado escrito. Instruída, bem informada,
imaginativa, pesquisadora consciente e apaixonada, muito poderia
ter produzido no campo intelectual. Penso que lhe faltou tempo
para ordenar e elaborar trabalhos resultantes de suas sondagens
nos nossos arquivos.
A atividade educacional absorveria seu tempo, não lhe
tendo permitido uma entrega maior do mister de escritora.Efetivamente,
seu sacerdócio maior era a causa do ensino, seu testemunho
de vida era a nobre condição de educadora, sua
aspiração mais legítima, a orientação
da juventude. Nesse sentido, cumpriu fielmente o papel a que
se propôs - formar caracteres, forjar inteligências
e, finalmente, ensinar aos seus educandos a amar a Deus e estremecer
a Pátria.Se é certo que todo ser humano tem a
ânsia da imortalidade e esta pode ser construída
através da concretização de um ideal, D.
Anfrísia Santiago é um nome imortal no campo da
educação baiana e brasileira.”
Autor: Consuelo Pondé
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